Entrevista com a Advogada Renata Medeiros

22 Ago 2015
Publicado em Entrevistas

     

 

 

Renata é advogada há 09 anos e minha amiga de algum tempo e segundo ela, já é advogada há mais tempo do que gostaria, pois só se repara como o tempo passa rápido com esse tipo de pergunta que sempre faço questão de fazer.

 

 

Escolheu essa profissão, pois segundo ela, quando criança sempre foi de falar muito, adorava escrever e “sempre tive um "quê" meio melodramático”. “Apesar de sempre me dizerem que eu seria uma boa jornalista, um teste vocacional me levou por esse caminho”. E eu me pergunto, porque será que todos advogados, a maioria que conheço queria ser jornalista, como também no meu caso. Mas Renata pensou inclusive em ser engenheira mecatrônica, eu no meu caso, pensei em ser arquiteto, porque será? Bom deixa para lá já que eu não sou o entrevistado.

 

Atualmente Renatinha, como eu costumo a chamar, por conta de seu tamanho compacto de ser, atua na área cível, com ênfase em direito do consumidor e direito contratual em geral, já tendo feito trabalhos também na área de direito de família e algumas poucas vezes no direito criminal.

 

Indagada se já se decepcionou com a sua profissão, Renata infelizmente responde que muitas vezes sob diversos pontos de vista... “Acho que minha primeira decepção foi quando eu ainda era estagiária! Comecei achando que já ia começar abafando, indo ajudar em audiência e tudo mais (também nem sei por que achei isso, mas...) e me dei que nos primeiros anos eu nada mais era que uma "office girl" arrumadinha! Como se diz por aí, encostei muito a barriga em balcão de fórum, tirei muitas cópias, arrebentei muito salto de sapato”. Porém, segundo Renata, “foi onde aprendi como a prática é muito diferente do que se aprende na faculdade e como o estágio é essencial para se advogar bem! ”

 

“Hoje em dia acredito que a maior dificuldade de um advogado é a desvalorização do profissional da área, eu me arrisco até a dizer que alguns "profissionais" acabaram "prostituindo" a nossa classe... Nos deparamos com advogados cobrando valores ínfimos (inclusive abaixo da tabela estabelecida pela própria OAB), prometendo milagres e prestando, por óbvio, um serviço condizente ao preço cobrado. Isso faz com que advogados que valorizam seu trabalho, que sabem do esforço e tempo empenhados em um processo recebam comentários do tipo "Nossa, que caro doutor (a)! Tem advogado que faz por bem menos..." E você tem que engolir seco, pois sabe que tipo de serviço será prestado, mas por ética profissional não pode dizer isso...”

 

Sobre a morosidade da Justiça, Renata entende que não se trata de culpa exclusiva de um ou de outro, mas por um conjunto de erros e vícios que se arrastam há anos. “Temos uma legislação processualista que permite um prolongamento muitas vezes desnecessário dos processos, advogados que não sabem instruir bem seus clientes no sentido de que a mediação ou um acordo talvez sejam caminhos melhores e as partes que, em sua grande maioria, já nos consultam com a mentalidade de intransigência e magistrados com mais processos do que podem dar conta”.

 

Renata não acha que nossa profissão está desgastada, ela tem certeza. Poxa Renata, não fale assim não, vamos mudar isso. Segundo ela, além dos advogados estarem desvalorizados, muitos colegas estão desatualizados e nesse ponto eu concordo com nossa entrevistada. “A desvalorização, como disse anteriormente, se deve muito pela imensa quantidade de advogados no mercado e dessa imensa quantidade vejo muito poucos colegas valorizando seu trabalho, o que por consequência, torna o mercado muito difícil... Isso sem mencionar os muitos cursos com qualificação duvidosa formando bacharéis aos montes, que sequer sabem escrever direito! Tem petições que chegam a doer na alma quando a gente lê!

 

Não sei ainda porque deixo essa pergunta, já que todos somos iguais perante a Lei, mas eu sempre gosto de saber se há diferença, ou seja, se uma pessoa prefere contratar um advogado ou uma advogada? E Renata me responde que prefere acreditar que o processo de escolha entre um ou outro profissional se deva muito mais pela confiança que se deposita no trabalho a ser executado e também pela empatia, do que por uma escolha baseada em sexo ou qualquer outra distinção desse gênero.

 

Pergunto se ela já deu aquela famosa “olhadinha no processo” sem cobrar? “Ah. Nos meus primeiros anos de formada sim! Mas com o tempo você amadurece profissionalmente, aprende com os erros e percebe que não deve "dar uma olhadinha no processo" e "nem tirar uma dúvida"... Afinal, quando você vai ao médico e passa em primeira consulta, ele cobra mesmo que seja só para pedir exames e fazer uma avaliação prévia, então porque nós deveríamos fazer de forma diferente? Tem que cobrar, sim, consulta e tem que valorizar todo tempo que você investiu na sua qualificação”. Ficaria muito feliz que todos os profissionais de nosso Direito pensassem desta forma.

 

Para Renatinha, os piores clientes, “sem dúvida, são aqueles que acham que nós trabalhamos 24 horas por dia, 7 dias por semana...  Não que isso não seja uma verdade na maioria das vezes, mas isso não significa que eles possam nos ligar a qualquer hora ou dia para saber como está o processo! Esse tipo de cliente é o pior”. Espero que nenhum cliente seu leia isso Renatinha.

 

Essa pergunta é super suspeita, mas quis saber como conheceu a existência do Vida de Advogado e segundo ela e eu não editei, “Tenho muito orgulho de dizer que sou uma grande amiga do idealizador da página! “Sobre as postagens, ela também se acha suspeita para dizer mas acha excelentes “mostrando com humor e sem maquiagem, como é nossa vida... E que vida!!!

 

Para finalizar quis saber se ela já tinha passado por alguma situação engraçada ou curiosa na advocacia e ela me confessou que a maioria foi na época de estágio, em especial no primeiro ano de estágio. “Certa vez meu chefe me mandou para o fórum ver um processo e eu NUNCA tinha sequer pisado em um fórum, quiçá ver o andamento de um processo... Então o cartorário, com aquela simpatia que contagiava qualquer um, disse que o processo estava concluso! Não tive dúvida, liguei para o meu chefe e falei: Doutor, o processo está com a parte contrária! (Me achando super por dentro do que estava acontecendo) E ele, claro, me disse que não era possível e eu insisti: Tá sim Doutor! O cartorário disse que os autos tão com o Cluso... nem preciso dizer que ele se acabou de rir da minha cara, mas depois me explicou o que significava com toda paciência do mundo! E eu morri de vergonha”.

 

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