Entrevista com Ricardo Galone

18 Out 2015
Publicado em Entrevistas

 

Ricardo Galone, nascido em São Paulo, ensino fundamental emédio em escola pública, graduação na Universidade Cidade de São Paulo em Direito, Pós-graduação em Direito Processual Civil e Direito Tributário, trabalhou pela primeira vez aos 16 anos em uma loja de som automotivo, sem ter rendimentos, apenas auxílio transporte e a experiência adquirida.

 

 

Dos 18 aos 21 anos, trabalhou em um call center, inicialmente como operador de telemarketing, sendo promovido para outros cargos, e com 19 anos, dava treinamento para novatos, treinamento de reciclagem para os veteranos, e em outras unidades.

 

Ricardo acredita na divina criação, e que, somos semeadores da colheita vida.

 

Algumas perguntas:

 

Porque entre tantas profissões você escolheu o Direito?

Após testes vocacionais, os indicadores eram um meio termo entre a engenharia/automação e direito. Foi muito difícil a decisão, mas levei em consideração as opiniões familiares, bem como, as referências que tive em uma gincana na escola, em que, em uma simulação, fui advogado de um suposto criminoso, longe da atual realidade, mas pude ter um leve gosto desta maravilhosa profissão.

 

Se arrepende?

Não me arrependo. Como tudo que é novo, existem fases e adaptações, momentos bons e desesperadores. Superação e determinação fizeram com que eu aprendesse a gostar e valorizar o direito e fazer meu ofício.

 

Qual a sua área de atuação?

Direito Tributário, execução fiscal.

Direito do consumidor, com ênfase em atendimento de empresas.

Elenco também as audiências, sustentações orais e o trabalho comercial realizada perante o judiciário como uma área de atuação.

 

Como é o dia a dia de um advogado que faz o seu tipo de trabalho?

Classifico como intenso. Há dias que não existe almoço, pausas e demais regalias que outras áreas de atuação possibilitam, mas em regra, é possível estruturar caso a caso para colher bons frutos em decorrência da atuação.

 

O que é mais difícil no Direito, lidar com o cliente ou seus superiores e porquê?

Nunca tive problemas na relação hierárquica corporativa. Sempre trabalhei com transparência, deixando claro minhas pretensões e objetivos. Tenho comigo que, para você ter o seu espaço, basta elaborar da melhor forma as suas atribuições. Na advocacia, a propagação do seu trabalho dá-se, em regra, pelos resultados alcançados, e não com um cartão bonito e um escritório que serve café em porcelana importada.

 

Lidar com clientes não é fácil, ainda mais, quando estamos diante de pedidos totalmente descabido no âmbito jurídico, ou, até mesmo quando você já teve outras experiências contrárias com determinado caso ou assunto, e alguém vêm lhe pedir a execução de determinado procedimento que já se prevê o resultado negativo. Em casos do tipo, sempre opto por falar a verdade, expondo meu parecer do possível desdobramento do caso, em regra rejeitando o patrocínio. Não digo que advogo pelo êxito, mas por algumas referências negativas, não vendo ao cliente ilusão jurídica.


Em resposta ao questionamento, digo que o mais difícil de lidar é com o cliente que também são meus superiores. Em casos do tipo, tenho o resguardo jurídico de que apenas estou executando um ato advindo de uma cadeia hierárquica, então responderei com a máxima de Rui Barosa, farei uso da máxima de Voltaire  “Posso não concordar com o que você faz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de continuar fazendo”.

 

Além de você há outros advogados na sua família?

Conheci minha noiva na faculdade. Nos formamos juntos.

 

De todos os casos que você já cuidou até hoje, qual aquele que você considera como sendo o mais gratificante e por que?

O caso mais importante para mim é um processo que corre desde 1999 e que ainda está em tramitação, e não foi iniciado por mim. O processo tramitou até o STF com êxito na condução do antigo patrono, que veio a falecer, e por questões de interesse pessoal em prejudicar uma das autoras da demanda, a sócia do antigo patrono deixou de executar o feito, que já tinha trânsito em julgado.

Trata-se de processo contra a municipalidade paulistana.

Quando assumi o feito, este encontrava-se parado a mais de 6 anos.
Requeri a execução, e de plano, e a Municipalidade arguiu prescrição da pretensão executória (2 anos e meio) que foi aceito.

Em apelação, foi possível a reversão do julgado com a aplicação de 2 teses, sendo, a necessidade de intimação pessoal na pessoa do executado (CPC antigo), bem como, os benefícios da Súmula 85 STJ, por se tratar de trato sucessivo.

Tratei o caso com os desembargadores, despachando memoriais, conversando diretamente no gabinete, tendo em vista a peculiaridade do caso, bem como, sustentei oralmente. Para minha surpresa, o recurso de apelação foi integralmente provido. Atualmente encontra-se aguardando julgamento do RESP da Municipalidade.

 

Já teve alguma decepção na carreira? Qual?

Sim. Ocorreu em uma das varas do Foro Central de São Paulo. Recebi uma intimação para emendar uma inicial, sob pena de extinção. Modestia parte, a inicial estava impecável, eis que, havia sido feita a 4 mãos.

Analisei o processo, não encontrei falhas. Falei com o diretor do cartório, que também não encontrou falhas. No gabinete, falei com a escrevente, que também não conseguiu me demostrar falhas. Com a magistrada, que inicialmente não queria me receber, estabeleci o diálogo para tentar sanar o suposto vício da inicial, mas para minha surpresa, a MM. Juíza de direito não conseguiu encontrar falhas, não deu o braço a torcer, dizendo que não havia compreendido os termos da inicial, e que eu “deveria consultar um advogado quando fosse fazer algo do tipo”.  O desdobramento do caso foi extenso, mas em suma, desisti do caso, modifiquei a competência, distribuindo o mesmo conteúdo em outro fórum (Santana). Na mesma tarde a liminar foi concedida. Concluo a decepção afirmando que para alguns magistrados, o peso da caneta acaba afetando o ego.

 

Qual sua opinião sobre os novos advogados que surgem no mercado?

São novos batalhadores, que na maioria dos casos, a porta de entrada na advocacia são os escritórios massivos, que pagam um salário equivalente a um vendedor do Roupas de um Shopping, sem nenhum benefício. Tenho amigos e amigas que largaram a advocacia e abriram comércio totalmente alheio a advocacia, e estão financeiramente muito mais recompensados.

 

Você acha que o exame da OAB não deveria existir? Caso positivo, isso não colocaria no mercado profissionais desqualificados?

Acho que o exame da OAB deve continuar existindo, e atribuo essa verificação de aptidão para todas as profissões, mas entendo como injusta a forma de avaliação pelo nosso conselho/ordem. Ao meu ver, a prova deveria ser justa e próxima da advocacia real, tanto é verdade que, por vezes, nem professores conseguem “decifrar” certas questões.

 

Você acha que a nossa profissão esta desvalorizada ou desgastada? Porque?

Desvalorizada. Lamento o advogado que aceita realizar uma audiência por contratação avulsa a R$ 35,00. Lamento também o escritório que contrata um advogado por este valor.

  

Você já passou por alguma situação engraçada ou curiosa na advocacia? Qual?

Juiz fumar charuto em audiência, isso é no mínimo curioso!

 

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